A
casa da avó fica num prédio de Lisboa com uma porta enorme e pesada. Tem um
elevador muito grande e lento, cheio de cheiros e sons de metal e madeira. A
meio do caminho do elevador (que é curto) a nossa cabeça acrescenta aos sons do
elevador um terceiro: a voz da avó. Uma pré-audição do que se vai seguir, do
“Olá meus queridos”, sempre igual e igual para todos. Por detrás desta voz e da
figura da minha avó em contraluz, aparece sempre o sorriso da Emília. É um “Olá
meus queridos” por telepatia. Basta aquele sorriso. A Emília deve ter a mesma
idade da avó mas é diferente, é pelo menos mais baixa. Sempre com os mesmos
casaquinhos de inverno e as blusas de verão. Tem uma irmã e uma terra, mas eu
não sei onde fica a terra nem nunca vi a irmã. Imagino-a sempre igual à Emília,
o mesmo cabelo curto e grisalho, as rugas nos mesmos sítios e até os mesmos
casaquinhos de inverno e blusas de verão. Não sei muito mais da Emília, sei que
já lá estava quando a mãe nasceu, e também que já lá estava quando os tios
nasceram. Esteve sempre lá e continua sempre lá, só sai duas vezes por ano para
ir à terra.
Depois
do beijinho à avó e do beijinho à Emília (normalmente com um abraço a que ela
chama Chi-coração) entramos em casa da avó. A casa da avó é muito grande e
cheia de coisas. Há sítios que são só da avó, sítios que são só nossos, das
crianças, e o quarto da Emília que é só dela. Os sítios que são só da avó são o
quarto dela, a casa de banho dela e o sofá bege que está na sala. A casa de
banho da avó tem uma banheira muito grande e uma mesinha cheia de cremes que a
Emília organiza por tamanhos. Tem sempre duas toalhas para se limparem as mãos,
cada uma com uma letra esquisita cosida na parte que se vê, uma letra é da avó
e a outra era do avô, pelo menos foi o que a Emília me disse.
O sítio
que é só nosso é o quarto de brincar. É rectangular e comprido com divãs e
estantes cheias de jogos e brinquedos num confronto de gerações. Mais ou menos
estragados, conforme o grau de interesse. Quando dormimos em casa da avó
dormimos neste quarto, com a porta encostada para entrar um feixe de luz do
corredor a que chamamos o “raio mágico”, conversando de cama para cama sem ver
bem as caras. O “raio mágico” não dá muita luz, por isso, só vemos sombras e
ouvimos as vozes em sussurro uns dos outros e as gargalhadas abafadas nas
almofadas para não chegarem ao quarto da avó ou da Emília. Às vezes chegam
mesmo e a avó vem dizer que é muito tarde e que temos que fechar os olhos e
tentar dormir. À segunda vez diz que temos mesmo que nos calar e desliga a luz
do corredor, apagando o nosso “raio mágico”. Quando vem a Emília em vez da avó
só vem uma vez, mas fica mais tempo. Abre a porta devagarinho como se já
estivéssemos a dormir e pergunta: - “Então meninos?” – num tom de meio zangada
a sorrir. Acende a luz e senta-se num dos divãs. Não conta estórias, a Emília
nunca conta estórias, pergunta qual era a nossa conversa e fica ali a ouvir
enquanto nos atropelamos a tentar contar. Não faz perguntas, fica só ali a
ouvir enquanto vai brincando com o seu próprio sorriso até que de repente se
levanta, ajeita o roupão, e sai, dizendo: - “Agora têm mesmo que dormir
meninos!”. Nunca nos calamos logo mas a conversa vai ficando mais esmorecida
até ir desaparecendo sem que nenhum de nós dê por isso antes da manhã seguinte.
O
quarto da Emília é mais afastado, fica depois da cozinha e dá para as
traseiras. Tem uma cama de madeira escura, muito alta, que eu nunca vi
desfeita, e tem muitos móveis parecidos com a cama, com rendas brancas a
decorar. Rendas que a Emília faz quando está a ver televisão com a avó, na
cadeira dela, perto do sofá bege que é só da avó. Aquele é o mundo da Emília, é
outra casa, muito pequena, quase de bonecas, onde se repara em todos os
pormenores e tudo está no sítio, como se ninguém vivesse naquela casa de
bonecas. A casa de banho da Emília é mais pequena que a da avó e não tem tantos
cremes, não tem mesmo nenhum creme. Deve ser por isso que os beijinhos da
Emília picam como os seus casacos de inverno quando nos dá os seus
chi-corações. Na casa de banho da Emília, sempre arrumada, só há um sabonete
muito grande, que cheira bem, uma escova de dentes e um corta unhas. Durante o
inverno há também um saco de água quente verde-claro que a Emília usa sempre,
ela resolve quase tudo com um saco de água quente. Tudo o resto deve estar no
armário, mas eu nunca abri o armário da Emília. Também a cozinha é quase só da
Emília, é como se fosse um castelo para proteger o seu quarto. Todos os
utensílios e tachos e panos e pegas pendurados como armas na parede do castelo.
Só a Emília os usa, só a Emília os sabe usar, sabe tudo, para que serve cada
um, como se lavam e onde se arrumam. No meio, a mesa enorme onde comemos ao
almoço parece uma ilha separada das bancadas por um fosso medieval, cheio de
crocodilos, onde a Emília se movimenta sem medo de prender os pés nos nossos
bancos, enquanto organiza uma orquestra de alumínios e colheres de pau que se
vão espalhando pelo mármore das bancadas.
Logo
a seguir à cozinha fica a sala de jantar, completamente diferente. O fosso e
mármores fortes de castelo são substituídos por madeiras enceradas, tapetes e
almofadas, numa susceptibilidade aterradora de riscos e nódoas que nem a Emília
seria capaz de tirar. Até o cheiro é diferente, não cheira a refogado misturado
com bolo mármore como a cozinha, tem o cheiro do corredor e do resto da casa,
um cheiro de madeira e perfumes antigos. Tudo é menos descontraído, os pratos
não são os da cozinha, há mais talheres e os copos têm sempre um pezinho para
parecerem mais altos do que são. É como se estivessem todos esticados em cima
de diferentes saltos altos discutindo quem é que é o da água. A avó come sempre
aqui e sabe sempre as regras todas que são precisas para comer aqui. A avó
nunca cuspiria um caroço de tangerina para o prato como fez a Leonor no outro
dia, é por isso que a avó evita comer uvas. Quando fazemos uma asneira dessas a
avó não se zanga, explica e sorri. Uma vez zangou-se mas não foi um caroço, foi
o Bernardo que decidiu cortar com o garfo e comer com a faca, o Bernardo faz
sempre as maiores asneiras.
Da
sala de jantar para a sala de estar temos que voltar ao corredor, a uma parte
mais larga do corredor, onde há um espelho enorme e dourado e uma mesa também
dourada e grande por baixo. É daqueles espelhos que mostram o chão e o tecto ao
mesmo tempo. Não serve para quase nada a não ser a avó ajeitar o cabelo cada
vez que vai à cozinha ou volta da cozinha. Às vezes aproxima-se com ar sério,
observa a cara, estica a pele com a palma das mãos, volta a deixar a pele
normal, suspira, sorri, e diz – “Estou uma velha”. Sabe tão bem como nós que é
mentira, está só com rugas e os pais e os avós dela mudaram-se todos para a sua
memória e molduras espalhadas pela casa.
A
sala de estar, tal como a de jantar, tem umas portas com vidrinhos que as
separam do corredor e que são muito más para se ouvirem as conversas dos
adultos sem sermos vistos. É preciso muito cuidado para o conseguir, mas se
estivermos encolhidinhos no corredor, ao lado das portas mal fechadas, consegue-se
ouvir. Uma vez estávamos a tentar ouvir a conversa, mas as vozes estavam tão
baixas que se ouvia melhor o roçar das calças e o som dos passos no tapete que
as próprias palavras. Mesmo assim iam chegando sons estranhos dos quais só
conseguíamos distinguir “Emília” (que estava a tratar da loiça), “Caroço” e “Já
viram o que é?”. Nada que fosse perceptível por isso fomos para o quarto de
brincar. Não sei há quanto tempo isto foi mas ainda não devia ser verão. No
verão a Emília vai sempre à terra, e no dia deste jantar a Emília ainda lá
estava. Esteve sempre na cozinha e a mãe foi lá dizer adeus mesmo à cozinha, em
vez de esperar que a Emília viesse à porta.
Esta
semana ouvi a avó perguntar à Emília se queria ir à terra e ela a responder que
não e a insistir que só iria nos anos da irmã, como era normal. A Emília nunca
vai à terra nesta altura do ano e avó fica sempre muito aflita quando ela não
está em casa. Era estranho. Estavam a começar as férias do natal e a Emília é
muito precisa nesta altura, não fazia sentido. Nesta altura do ano nós passamos
muito tempo em casa da avó.
A
Emília tem andado muito esquisita, quase não sorri e não fez o bolo normal do
lanche. Entrei sozinho na cozinha e ela estava sentada na mesa grande sem fazer
nada, perguntei: - “Tudo bem, Emília?” – ela sorriu mais ou menos, respondeu
que sim e perguntou-me o mesmo. Fiquei meio atarantado, respondi que sim e
voltei para a sala onde a avó tinha posto um filme para nós, enquanto ia à rua.
Ao jantar desse dia a Emília estava muito branca, quase da cor dos azulejos do
lava-loiça, e olhava para o chão como se não soubesse o sítio em que estavam os
pés dos nossos bancos e tivesse medo de escorregar. Circulava à nossa volta
como se não conhecesse os crocodilos do fosso que olhavam para ela com ar de
predadores. Pôs a loiça toda na bancada, encostou-se, virou-se (estava ainda
mais branca) não sorria nem chorava, estava só ausente. Foi ter com a avó que
vinha a caminho da cozinha e disse-lhe qualquer coisa a que a avó acenou com a
cabeça. Ao voltar a entrar na cozinha olhou para todos, deu a volta dando um
beijinho na cabeça de cada um e foi para o quarto dela. Depois do som do trinco
da porta do quarto dela saímos todos da cozinha, todos calados em direcção à
sala como exército que sai do castelo sem saber para que guerra vai.
Na
manhã seguinte entrava no quarto um raio parecido com o “raio mágico” mas ao
contrário, vinha da janela, era dia. Levantei-me e fui à cozinha ver quem é que
já lá estava. Quando cheguei vi pela fresta da porta uma senhora com o cabelo
apanhado em carrapito e um xaile, estava de costas, encolhida, toda de preto.
De lado a avó chorava calada com um ar muito distante do castelo de tachos e
panos e pegas. Nunca tinha visto a avó chorar. As lágrimas procuravam as rugas
para se orientarem chamando-lhe velha-velha-velha, com uma maldade assustadora.
Abri a porta a tremer e entrei, do outro lado da cozinha a porta do quarto da
Emília estava entreaberta. A avó viu-me, abraçou-me deitando a cabeça dela
sobre a parte de cima da minha, deu-me um beijo enorme e não disse nada. Olhei
para a senhora que estava no lugar da Emília, também estava a chorar mas
tentava sorrir-me. Decidi perguntar à Emília o que se passava, ela devia saber,
estávamos no território dela. Entrei no quarto dela e estava tudo igual, tudo
arrumado, tudo esticado como se ninguém lá vivesse e a cama impecavelmente
feita. Voltei à cozinha, olhei para os olhos encharcados da avó e percebi. A
Emília tinha ido para o céu.
Azeitão, fevereiro de 2014