terça-feira, 10 de junho de 2014

Miga? Miga?! Miga! Estremece. Está viva. Olha-me com uns olhos semi-cerrados de meio de noite. Está frio e chuva e escuro. Eu sei que devia estar deitado, já vou. Estamos só os dois outra vez, Miga. Puta de solidão. Cheira a cão e a mofo e a whisky. Não adormeças agora, por favor. Não tens frio? Quem me dera que soubesses dar abraços. Estavas a sonhar? Eu sei que já tivemos esta conversa mas eu não acredito que não sonhes. Eu sonho cada vez menos… E quando sonho, têm sido sempre coisas tão terríveis que acordo enrugado da almofada espremida e rodeado de lençóis entrouxados no chão do quarto dos rapazes.
Estás aí Miga? Suspira, talvez de compaixão, ou então de tédio. Desculpa Miga, não estou nada boa companhia. Ainda por cima comi as nossas bolachas todas há bocado. Se quiseres podes adormecer, eu fico aqui. Não quero voltar para aquela caminha onde há anos não caibo. Seguiu-me em todos os pesos, fases e alturas - “agora passou a mãe, agora passou a avó, agora passou o pai”- e a cama resistiu sempre. Resistiu a todos os tios e primos e amigos, resistiu até aos meus pés de fora e aos espasmos dos pesadelos. Estremece heróica a cada rasgão nos lençóis velhos dos avós que, como os cães, sofrem os males dos donos.
Estás a dormir? Ressona como um velhinho, estendida sobre o tapete grande da entrada da cozinha, do lado de fora, é evidente. Sonha, de certeza que sonha. Um circo, se calhar, só com pessoas, uma jaula de leões em silêncio e um pódio vazio, só tem dois lugares, claro. Se calhar não está vazio, eu é que ainda estou a sonhar.
Não morras já Miga, preciso que fiques aí a ressonar. Preciso que estejas aqui amanhã de manhã. Preciso que continues a não perceber nada do que te digo quando te digo coisas que só digo a ti. Pode ser que o circo mude de terra, os circos não costumam estar muito tempo no mesmo sítio, felizmente.


Azeitão, madrugada de 10 de Junho, 2014

segunda-feira, 17 de março de 2014

Terror de Te Amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo 

Mal de te amar neste lugar de imperfeição 
Onde tudo nos quebra e emudece 
Onde tudo nos mente e nos separa. 

Que nenhuma estrela queime o teu perfil 
Que nenhum deus se lembre do teu nome 
Que nem o vento passe onde tu passas. 

Para ti eu criarei um dia puro 
Livre como o vento e repetido 
Como o florir das ondas ordenadas. 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética” 


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A Casa da Avó

A casa da avó fica num prédio de Lisboa com uma porta enorme e pesada. Tem um elevador muito grande e lento, cheio de cheiros e sons de metal e madeira. A meio do caminho do elevador (que é curto) a nossa cabeça acrescenta aos sons do elevador um terceiro: a voz da avó. Uma pré-audição do que se vai seguir, do “Olá meus queridos”, sempre igual e igual para todos. Por detrás desta voz e da figura da minha avó em contraluz, aparece sempre o sorriso da Emília. É um “Olá meus queridos” por telepatia. Basta aquele sorriso. A Emília deve ter a mesma idade da avó mas é diferente, é pelo menos mais baixa. Sempre com os mesmos casaquinhos de inverno e as blusas de verão. Tem uma irmã e uma terra, mas eu não sei onde fica a terra nem nunca vi a irmã. Imagino-a sempre igual à Emília, o mesmo cabelo curto e grisalho, as rugas nos mesmos sítios e até os mesmos casaquinhos de inverno e blusas de verão. Não sei muito mais da Emília, sei que já lá estava quando a mãe nasceu, e também que já lá estava quando os tios nasceram. Esteve sempre lá e continua sempre lá, só sai duas vezes por ano para ir à terra.
Depois do beijinho à avó e do beijinho à Emília (normalmente com um abraço a que ela chama Chi-coração) entramos em casa da avó. A casa da avó é muito grande e cheia de coisas. Há sítios que são só da avó, sítios que são só nossos, das crianças, e o quarto da Emília que é só dela. Os sítios que são só da avó são o quarto dela, a casa de banho dela e o sofá bege que está na sala. A casa de banho da avó tem uma banheira muito grande e uma mesinha cheia de cremes que a Emília organiza por tamanhos. Tem sempre duas toalhas para se limparem as mãos, cada uma com uma letra esquisita cosida na parte que se vê, uma letra é da avó e a outra era do avô, pelo menos foi o que a Emília me disse.
O sítio que é só nosso é o quarto de brincar. É rectangular e comprido com divãs e estantes cheias de jogos e brinquedos num confronto de gerações. Mais ou menos estragados, conforme o grau de interesse. Quando dormimos em casa da avó dormimos neste quarto, com a porta encostada para entrar um feixe de luz do corredor a que chamamos o “raio mágico”, conversando de cama para cama sem ver bem as caras. O “raio mágico” não dá muita luz, por isso, só vemos sombras e ouvimos as vozes em sussurro uns dos outros e as gargalhadas abafadas nas almofadas para não chegarem ao quarto da avó ou da Emília. Às vezes chegam mesmo e a avó vem dizer que é muito tarde e que temos que fechar os olhos e tentar dormir. À segunda vez diz que temos mesmo que nos calar e desliga a luz do corredor, apagando o nosso “raio mágico”. Quando vem a Emília em vez da avó só vem uma vez, mas fica mais tempo. Abre a porta devagarinho como se já estivéssemos a dormir e pergunta: - “Então meninos?” – num tom de meio zangada a sorrir. Acende a luz e senta-se num dos divãs. Não conta estórias, a Emília nunca conta estórias, pergunta qual era a nossa conversa e fica ali a ouvir enquanto nos atropelamos a tentar contar. Não faz perguntas, fica só ali a ouvir enquanto vai brincando com o seu próprio sorriso até que de repente se levanta, ajeita o roupão, e sai, dizendo: - “Agora têm mesmo que dormir meninos!”. Nunca nos calamos logo mas a conversa vai ficando mais esmorecida até ir desaparecendo sem que nenhum de nós dê por isso antes da manhã seguinte.
O quarto da Emília é mais afastado, fica depois da cozinha e dá para as traseiras. Tem uma cama de madeira escura, muito alta, que eu nunca vi desfeita, e tem muitos móveis parecidos com a cama, com rendas brancas a decorar. Rendas que a Emília faz quando está a ver televisão com a avó, na cadeira dela, perto do sofá bege que é só da avó. Aquele é o mundo da Emília, é outra casa, muito pequena, quase de bonecas, onde se repara em todos os pormenores e tudo está no sítio, como se ninguém vivesse naquela casa de bonecas. A casa de banho da Emília é mais pequena que a da avó e não tem tantos cremes, não tem mesmo nenhum creme. Deve ser por isso que os beijinhos da Emília picam como os seus casacos de inverno quando nos dá os seus chi-corações. Na casa de banho da Emília, sempre arrumada, só há um sabonete muito grande, que cheira bem, uma escova de dentes e um corta unhas. Durante o inverno há também um saco de água quente verde-claro que a Emília usa sempre, ela resolve quase tudo com um saco de água quente. Tudo o resto deve estar no armário, mas eu nunca abri o armário da Emília. Também a cozinha é quase só da Emília, é como se fosse um castelo para proteger o seu quarto. Todos os utensílios e tachos e panos e pegas pendurados como armas na parede do castelo. Só a Emília os usa, só a Emília os sabe usar, sabe tudo, para que serve cada um, como se lavam e onde se arrumam. No meio, a mesa enorme onde comemos ao almoço parece uma ilha separada das bancadas por um fosso medieval, cheio de crocodilos, onde a Emília se movimenta sem medo de prender os pés nos nossos bancos, enquanto organiza uma orquestra de alumínios e colheres de pau que se vão espalhando pelo mármore das bancadas.
Logo a seguir à cozinha fica a sala de jantar, completamente diferente. O fosso e mármores fortes de castelo são substituídos por madeiras enceradas, tapetes e almofadas, numa susceptibilidade aterradora de riscos e nódoas que nem a Emília seria capaz de tirar. Até o cheiro é diferente, não cheira a refogado misturado com bolo mármore como a cozinha, tem o cheiro do corredor e do resto da casa, um cheiro de madeira e perfumes antigos. Tudo é menos descontraído, os pratos não são os da cozinha, há mais talheres e os copos têm sempre um pezinho para parecerem mais altos do que são. É como se estivessem todos esticados em cima de diferentes saltos altos discutindo quem é que é o da água. A avó come sempre aqui e sabe sempre as regras todas que são precisas para comer aqui. A avó nunca cuspiria um caroço de tangerina para o prato como fez a Leonor no outro dia, é por isso que a avó evita comer uvas. Quando fazemos uma asneira dessas a avó não se zanga, explica e sorri. Uma vez zangou-se mas não foi um caroço, foi o Bernardo que decidiu cortar com o garfo e comer com a faca, o Bernardo faz sempre as maiores asneiras.
Da sala de jantar para a sala de estar temos que voltar ao corredor, a uma parte mais larga do corredor, onde há um espelho enorme e dourado e uma mesa também dourada e grande por baixo. É daqueles espelhos que mostram o chão e o tecto ao mesmo tempo. Não serve para quase nada a não ser a avó ajeitar o cabelo cada vez que vai à cozinha ou volta da cozinha. Às vezes aproxima-se com ar sério, observa a cara, estica a pele com a palma das mãos, volta a deixar a pele normal, suspira, sorri, e diz – “Estou uma velha”. Sabe tão bem como nós que é mentira, está só com rugas e os pais e os avós dela mudaram-se todos para a sua memória e molduras espalhadas pela casa.
A sala de estar, tal como a de jantar, tem umas portas com vidrinhos que as separam do corredor e que são muito más para se ouvirem as conversas dos adultos sem sermos vistos. É preciso muito cuidado para o conseguir, mas se estivermos encolhidinhos no corredor, ao lado das portas mal fechadas, consegue-se ouvir. Uma vez estávamos a tentar ouvir a conversa, mas as vozes estavam tão baixas que se ouvia melhor o roçar das calças e o som dos passos no tapete que as próprias palavras. Mesmo assim iam chegando sons estranhos dos quais só conseguíamos distinguir “Emília” (que estava a tratar da loiça), “Caroço” e “Já viram o que é?”. Nada que fosse perceptível por isso fomos para o quarto de brincar. Não sei há quanto tempo isto foi mas ainda não devia ser verão. No verão a Emília vai sempre à terra, e no dia deste jantar a Emília ainda lá estava. Esteve sempre na cozinha e a mãe foi lá dizer adeus mesmo à cozinha, em vez de esperar que a Emília viesse à porta.
Esta semana ouvi a avó perguntar à Emília se queria ir à terra e ela a responder que não e a insistir que só iria nos anos da irmã, como era normal. A Emília nunca vai à terra nesta altura do ano e avó fica sempre muito aflita quando ela não está em casa. Era estranho. Estavam a começar as férias do natal e a Emília é muito precisa nesta altura, não fazia sentido. Nesta altura do ano nós passamos muito tempo em casa da avó.
A Emília tem andado muito esquisita, quase não sorri e não fez o bolo normal do lanche. Entrei sozinho na cozinha e ela estava sentada na mesa grande sem fazer nada, perguntei: - “Tudo bem, Emília?” – ela sorriu mais ou menos, respondeu que sim e perguntou-me o mesmo. Fiquei meio atarantado, respondi que sim e voltei para a sala onde a avó tinha posto um filme para nós, enquanto ia à rua. Ao jantar desse dia a Emília estava muito branca, quase da cor dos azulejos do lava-loiça, e olhava para o chão como se não soubesse o sítio em que estavam os pés dos nossos bancos e tivesse medo de escorregar. Circulava à nossa volta como se não conhecesse os crocodilos do fosso que olhavam para ela com ar de predadores. Pôs a loiça toda na bancada, encostou-se, virou-se (estava ainda mais branca) não sorria nem chorava, estava só ausente. Foi ter com a avó que vinha a caminho da cozinha e disse-lhe qualquer coisa a que a avó acenou com a cabeça. Ao voltar a entrar na cozinha olhou para todos, deu a volta dando um beijinho na cabeça de cada um e foi para o quarto dela. Depois do som do trinco da porta do quarto dela saímos todos da cozinha, todos calados em direcção à sala como exército que sai do castelo sem saber para que guerra vai.
Na manhã seguinte entrava no quarto um raio parecido com o “raio mágico” mas ao contrário, vinha da janela, era dia. Levantei-me e fui à cozinha ver quem é que já lá estava. Quando cheguei vi pela fresta da porta uma senhora com o cabelo apanhado em carrapito e um xaile, estava de costas, encolhida, toda de preto. De lado a avó chorava calada com um ar muito distante do castelo de tachos e panos e pegas. Nunca tinha visto a avó chorar. As lágrimas procuravam as rugas para se orientarem chamando-lhe velha-velha-velha, com uma maldade assustadora. Abri a porta a tremer e entrei, do outro lado da cozinha a porta do quarto da Emília estava entreaberta. A avó viu-me, abraçou-me deitando a cabeça dela sobre a parte de cima da minha, deu-me um beijo enorme e não disse nada. Olhei para a senhora que estava no lugar da Emília, também estava a chorar mas tentava sorrir-me. Decidi perguntar à Emília o que se passava, ela devia saber, estávamos no território dela. Entrei no quarto dela e estava tudo igual, tudo arrumado, tudo esticado como se ninguém lá vivesse e a cama impecavelmente feita. Voltei à cozinha, olhei para os olhos encharcados da avó e percebi. A Emília tinha ido para o céu.

Azeitão, fevereiro de 2014

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Quem nunca aspirou na vida
O perfume de uma flor?
Quem não escreveu algum dia
Uma cartinha de amor;

Quem não as releu pensando
Encontrar nelas verdade
E quantas vezes a vida
Só lhe mostrou falsidade;

Quem por esperar uma carta
O coração não pulsou?
Mas o dia foi passando
E a cartinha não chegou.

Nas cartas que se recebem
Há tanta variedade
Que algumas dizem amor,
Outras só dizem saudade.

Quem encontrar algum dia
Cartas dos tempos passados
Não ria, não faça troça,
São corações aos bocados.

E o perfume que se evola
Dessas cartas que aí vês
Dirão aos novos que as lerem,
São lições para vocês.

Cartas, sorrisos, amores,
Esperanças, dores esquecidas,
Numa folha de papel
Podem caber duas vidas


 Versos escritos pela minha trisavó, sem data

domingo, 5 de janeiro de 2014

Manifesto a um Cão Velho

A ti, Miga, que me ouves sempre.
A ti Miga, que chegaste era eu uma criança já consciente disso. Hoje, adolescente ainda, vejo-te e falo-te. Já não és pequena e tonta, estás grande, velha, muito lenta, surda até, mas os olhos são os mesmos e basta-me. Tenho sonhado muito, tanto e tanta coisa e espaços e pessoas. Sempre as mesmas pessoas. Tu sonhas? Deves sonhar. De certeza que sonhas. Eu sonho com tudo, quase tudo… E pior, lembro-me! Às vezes acordar é um alívio, outras, um pesadelo terrível. Era melhor o sonho, fecham-se os olhos com força, não volta. Mudo, estico, encolho espaços, ponho e tiro luzes, entram e saem personagens. Todas têm texto, todas sabem o texto (nos sonhos sabem-se sempre os textos). Às vezes entra como palco a faculdade, igual nos sonhos e na realidade, de tão estruturada, pesada, rígida. Cheia dos seus teatros, perdão, anfiteatros! Palcos de peças prolixas e secas. Entram e saem actores e entras sempre tu. Tu não, Miga, outra pessoa, desculpa, estava distraído. Estou quase sempre. Tu em sonhos entras pouco. Deve ser de seres cão, cadela. Entraste uma vez mas o sonho era tão estúpido que não vale a pena contar. Conta-me os teus. Se calhar também não valem a pena. Tens vergonha. Os olhos abrem-se ainda mais. Queres uma bolacha? Vou lá dentro buscar. (A cauda abana). É tão simples fazer-te feliz, deve ser bom ser-se assim tão simples. Pensar sem palavras. A bolacha desapareceu. Restam migalhas que se cravam na minha cara com a tua lambidela. Obrigado eu, por me ouvires. Ouves sempre. Se calhar é por estares velha. Ou então é da bolacha… Não! Tu sempre me ouviste, sempre abanaste a cauda, sempre gostaste das nossas bolachas, as boas, as dos humanos. Sempre deste essas lambidelas de mau hálito. Não, não é por estares velha. Isso não te mudou os olhos. Queres outra? Agora esperas. (Olha-me como se percebesse). Percebe tão bem. Nunca foste capaz de ir buscar uma simples bola de ténis a três metros e ouviste-me sempre, com tanta atenção. Sempre com esse ar preguiçoso. Dizem que os cães são parecidos com os donos. Talvez também eu seja um bocado preguiçoso, talvez te devesse dar banho. Não, ainda aguenta. Quando vier o Verão e estiver menos frio. E os teus Sonhos? Também brincas com as personagens como se o mundo fosse teu? Se calhar achas mesmo que é. Nem o muro, lei máxima para ti, tu respeitas. Eu brinco, enceno a peça e seguro as marionetas, tantos e tantos cordeizinhos esticados, sempre na eminência de se embaraçarem. Às vezes embaraçam-se mesmo. Este tropeça naquele, que diz uma coisa que não devia e está no sítio errado. Levou o estrado da faculdade para a praia. Não pode, não pode! Acordo. Também sonhas assim? Não, tu não podes sonhar assim, não pensas por palavras. Deves sonhar só com imagens e luzes. Como é que é? Talvez mais fácil, minha preguiçosa. Deves ser o único cão que come deitado. Não deves levar estrados da faculdade para a praia e pôr pianos a tocar em desertos onde nunca foste. Se calhar sou eu que complico o que é simples. O mal não é sonhar, é trazer os sonhos atrás.


Azeitão, madrugada de 4 de Janeiro, 2014