A
ti, Miga, que me ouves sempre.
A
ti Miga, que chegaste era eu uma criança já consciente disso. Hoje, adolescente
ainda, vejo-te e falo-te. Já não és pequena e tonta, estás grande, velha, muito
lenta, surda até, mas os olhos são os mesmos e basta-me. Tenho sonhado muito,
tanto e tanta coisa e espaços e pessoas. Sempre as mesmas pessoas. Tu sonhas?
Deves sonhar. De certeza que sonhas. Eu sonho com tudo, quase tudo… E pior,
lembro-me! Às vezes acordar é um alívio, outras, um pesadelo terrível. Era
melhor o sonho, fecham-se os olhos com força, não volta. Mudo, estico, encolho
espaços, ponho e tiro luzes, entram e saem personagens. Todas têm texto, todas
sabem o texto (nos sonhos sabem-se sempre os textos). Às vezes entra como palco
a faculdade, igual nos sonhos e na realidade, de tão estruturada, pesada,
rígida. Cheia dos seus teatros, perdão, anfiteatros! Palcos de peças prolixas e
secas. Entram e saem actores e entras sempre tu. Tu não, Miga, outra pessoa,
desculpa, estava distraído. Estou quase sempre. Tu em sonhos entras pouco. Deve
ser de seres cão, cadela. Entraste uma vez mas o sonho era tão estúpido que não
vale a pena contar. Conta-me os teus. Se calhar também não valem a pena. Tens
vergonha. Os olhos abrem-se ainda mais. Queres uma bolacha? Vou lá dentro
buscar. (A cauda abana). É tão simples fazer-te feliz, deve ser bom ser-se
assim tão simples. Pensar sem palavras. A bolacha desapareceu. Restam migalhas
que se cravam na minha cara com a tua lambidela. Obrigado eu, por me ouvires.
Ouves sempre. Se calhar é por estares velha. Ou então é da bolacha… Não! Tu
sempre me ouviste, sempre abanaste a cauda, sempre gostaste das nossas
bolachas, as boas, as dos humanos. Sempre deste essas lambidelas de mau hálito.
Não, não é por estares velha. Isso não te mudou os olhos. Queres outra? Agora
esperas. (Olha-me como se percebesse). Percebe tão bem. Nunca foste capaz de ir
buscar uma simples bola de ténis a três metros e ouviste-me sempre, com tanta
atenção. Sempre com esse ar preguiçoso. Dizem que os cães são parecidos com os
donos. Talvez também eu seja um bocado preguiçoso, talvez te devesse dar banho.
Não, ainda aguenta. Quando vier o Verão e estiver menos frio. E os teus Sonhos?
Também brincas com as personagens como se o mundo fosse teu? Se calhar achas
mesmo que é. Nem o muro, lei máxima para ti, tu respeitas. Eu brinco, enceno a
peça e seguro as marionetas, tantos e tantos cordeizinhos esticados, sempre na
eminência de se embaraçarem. Às vezes embaraçam-se mesmo. Este tropeça naquele,
que diz uma coisa que não devia e está no sítio errado. Levou o estrado da
faculdade para a praia. Não pode, não pode! Acordo. Também sonhas assim? Não,
tu não podes sonhar assim, não pensas por palavras. Deves sonhar só com imagens
e luzes. Como é que é? Talvez mais fácil, minha preguiçosa. Deves ser o único
cão que come deitado. Não deves levar estrados da faculdade para a praia e pôr
pianos a tocar em desertos onde nunca foste. Se calhar sou eu que complico o
que é simples. O mal não é sonhar, é trazer os sonhos atrás.
Azeitão,
madrugada de 4 de Janeiro, 2014