A Débil
Eu, que sou feio, sólido, leal,
a ti, que és bela, frágil, assustada,
quero estimar-te, sempre, recatada
numa existência honesta, de cristal.
Sentado à mesa dum café devasto,
ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura.
nesta Babel tão velha e corruptora,
tive tentações de te oferecer o braço.
(...)
E foi, então, que eu, homem varonil,
quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu que sou hábil, prático, viril.
Cesário Verde, Novembro, 1876
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Dias Cinzentos de Férias II
Canção
Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.
Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.
Eugénio de Andrade, in Antologia Breve
Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.
Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.
Eugénio de Andrade, in Antologia Breve
Dias Cinzentos de Férias
Espera
Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pásaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.
Eugénio de Andrade in Antologia Breve
Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pásaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.
Eugénio de Andrade in Antologia Breve
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
É já Natal e chove
e está frio,
cheira a chá.
Tantos cheiros
e todos me enjoam.
Vejo-te em cada batidela à porta
oiço-te em cada carro que chega.
Vozes de primo enchem a sala,
vozes de primo deixam a sala fria.
(a sala não aquece)
Este ano a sala não aquece,
há muitas frestas nas janelas
por onde entram, sem vergonha,
frio, água e nuvens cinzentas.
Azeitão, madrugada natalícia, 2013
e está frio,
cheira a chá.
Tantos cheiros
e todos me enjoam.
Vejo-te em cada batidela à porta
oiço-te em cada carro que chega.
Vozes de primo enchem a sala,
vozes de primo deixam a sala fria.
(a sala não aquece)
Este ano a sala não aquece,
há muitas frestas nas janelas
por onde entram, sem vergonha,
frio, água e nuvens cinzentas.
Azeitão, madrugada natalícia, 2013
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência
Beatriz é uma mulher mais ou
menos sozinha, mais ou menos triste, mais ou menos bonita. Quando lhe perguntam
a idade, tem que pensar duas vezes para arranjar maneira de se esquivar.
Beatriz não tem vergonha da sua idade, tem vergonha da sua vida naquela idade.
Vive sozinha, todos os dias limpa o fogão. Às vezes pensa porque é que o faz se
não é assim tão essencial. Depois pensa que se se tivesse juntado a alguém
também sentiria essa necessidade. Por fim, pensa que se se tivesse juntado a
alguém talvez o fogão precisasse realmente de ser limpo. Pensa também que
talvez não usasse sempre o mesmo tacho, aquele pequeno que dá duas doses de
arroz: a do almoço e a do jantar. E quando chega a esta fase do raciocínio fica
outra vez mais ou menos triste e às vezes sente uma lágrima do lado de dentro
do olho. Beatriz tem muita vergonha de as ver do lado de fora dos olhos, por
isso chora quase sempre para dentro. Uma vez Beatriz chorou para fora, chorou
uma noite inteira, chorou tanto que a meio da noite teve que mudar a camisa de
noite por ter já os colarinhos molhados. Foi no dia em que António se foi
embora.
António fora um quase-namorado.
Era um pouco tonto e tinha muita vergonha de si, mas no fundo era um bom rapaz.
António teve que passar muitas vezes na rua de Beatriz; teve que se pôr várias
vezes atrás dela na fila do minimercado para pedir quatro tangerinas e um
chocolate; teve até que fingir que deixara cair a carteira para lhe conseguir
dizer
Olá. – Um “olá” tão tremido e
imperceptível que Beatriz, que era mais ou menos descontraída, parou e
perguntou
O quê?
Desculpa, estava a apanhar a
carteira, acho que já te vi por aqui
Sim, sim, também já te tenho
visto às vezes na Clara (Clara era a dona do minimercado). Moras aqui?
Mais ou menos - disse em tom de
tosse – moro perto. E tu? – cada vez mais atrapalhado.
Eu aqui mesmo e agora tenho que
subir! Dito isto abrigou-se no hall do seu prédio. Tinha sido muita conversa
com um estranho. Coisa que a mãe sempre lhe dissera para não fazer.
Perante esta última e repentina
resposta, António fez duas tentativas secas de um beijinho de cara mas
faltou-lhe a coragem. Sorriu, corou e, virando costas, seguiu pela rua fazendo
caretas espontâneas de excitação detida. Falara com ela!
Dias e dias volvidos António
continuava a contentar-se com meros sorrisos e “olás” cada vez menos abafados.
Cada vez mais culpando-se pela sua falta de coragem e pela sua parvoíce,
conseguiu ao fim de três meses tocar-lhe no ombro e segurar-lhe o saco das
compras. O saco estava terrivelmente leve, três batatas, uma cabeça de alho e
um pacote pequeno de detergente da loiça. Beatriz nunca precisaria de ajuda
para o carregar mas sorriu, contente com a delicadeza.
Quase chegados ao Verão António,
encontrando-se com Beatriz na rua desta, levara-a à porta e deu-lhe, de
repente, um beijo na testa seguido de outro num centro de um triângulo entre nariz,
boca e orelha esquerda, tocando nesta com a mão. Separam-se apressadamente sem
dizer mais nada. Era preciso pensar.
Beatriz estava cada vez mais
envolvida com a ideia de que António poderia vir a ser um bom companheiro e
António ficava ao Rubro com cada nova pequena conquista.
Já em Outubro, princípios de
Outubro, quando a terra começa a cheirar a chuva e as folhas principiam a
amarelar, Beatriz ao abrir a caixa do correio encontrou um bilhetinho azul:
Tive mesmo que ir embora, gosto muito de ti, não fiques à espera.
António
Beatriz passou o dia todo a
chorar pequenos soluços, enjoada e com frio. Há noite, não conseguindo comer a
dose pequena do seu jantar, decidiu ir para a cama. Era uma cama de pessoa e
meia que rangia um bocadinho mas não incomodava. Levara uma revista que folheava
enquanto pensava em tudo o que não tinha sido aquela relação. Estava triste,
aumentava a frequência dos soluços e os olhos doíam-lhe um bocadinho enquanto
tentava focar as letras que não estava a ler. Caiu uma lágrima muito grossa,
depois mais duas e depois um soluço muito grande. Na cabeça martelava-lhe a voz
de António dizendo – Não fiques à espera – e outras lágrimas vinham. Claro que
ficaria à espera.
Azeitão, 21 de Dezembro de 2013
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Natal
Aproxima-se
o Natal
sorrateiro
e discreto
como quem
quer chegar de surpresa.
Coloca-se
numa luz ali,
numa
conversa aqui, num presépio
que vai
nascendo na casa da vizinha…
É já
Dezembro e chove,
e está
frio, cheira a chá.
É
inverno.
O Natal é
o ponto quente do inverno
e por
mais cheiros que tenha,
cheira
sempre só a Natal.
Lareira,
casacos, gente, tilintar
de loiças
e copos, gargalhadas, confusão.
Às vezes
umas lágrimas,
às vezes
um presente que se dá
às vezes
um acordar
gelado, e
um presente que se recebe.
É Natal!
diz a rir
quem chega
Feliz
Natal!
diz uma
velhinha que me conhece.
E
cantam-se canções
(finalmente
a sala aquece)
tiram-se
mais uns casacos
e
juntamo-nos ao coro.
É meia
noite
está
escuro.
Nasce,
noutro tempo, lá longe
um menino
que sorri
diferente
em todos os presépios.
É em sua
honra que ali estamos,
festejando
o facto de ali estarmos.
Festejamos
sempre
quando estamos
em algum sítio.
Morre um
tio, nasce uma prima,
festejamos
sempre se é natal.
Continuação de uma Coisa Maior
Talvez seja por seres assim
e essa forma me ter preenchido;
Talvez seja pela força
com que o sinto,
sabendo que o sinto;
Talvez não o tenha medido,
não por medo ou falta de cuidado,
mas pela certeza da imensidão do tamanho;
Talvez por não estar experimentado
e ser só esperança…
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Ai, Margarida
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Álvaro de Campos
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Mimos
Não
só de beijos se fazem os mimos, mas também de gestos. Gestos extravagantes e
estridentes, que chamam a atenção de todos aqueles que estavam suficientemente
longe para não nos ouvir falar e gestos muito pequenos, muito suaves, que
chegam quase a funcionar como telepatia. Gestos tácitos que carregam informação
em código, destinados apenas a um decifrador específico.
Não
só de beijos se fazem os mimos, mas também de olhares. Olhares não são
piscadelas de olhos, essas pouco ou nada têm de mimos, sem prejuízo do seu
valor próprio. Mimos são outra coisa que os olhos, às vezes, sem grande
esforço, conseguem fazer. Aqui, mais até que nos gestos, a comunicação é
telepática, de uma telepatia perfeitamente sintonizada.
Não
só de beijos se fazem os mimos, mas também de abraços. Abraços são uma espécie
de gestos que não sendo extravagantes, nem especialmente discretos, assentam
num equilíbrio que lhes é dado pela normalidade. Não são, nem nunca foram, um
acto formal e no entanto podem ser muitas coisas. Podem ser familiares, podem
ser entre amigos, mas são sobretudo amorosos. É nesta última categoria que,
inequivocamente, correspondem a mimos.
Não
só de abraços se fazem os mimos, mas também de sorrisos. Sorrisos não são
gargalhadas, sorrisos são gestos suaves que não são feitos pelas mãos. São
contracções musculares, resultado que uma ordem de dentro e não de uma resposta
a um estímulo do mundo exterior, embora o sejam sempre, indirectamente.
Não
só de beijos se fazem os mimos, mas também de palavras. Com palavras resume-se,
ou simplesmente se transmite, tudo o que queremos. São, no entanto, uma
linguagem mais difícil e até menos universal que os gestos, os olhares, os
abraços e os sorrisos. São a forma mais rica e completa de mimar, mas obrigam a
uma sintonia difícil entre o que comunica e o que decifra, ou deveria decifrar.
São as palavras, por isso, uma comunicação mais interior do que exterior.
Aquele que melhor entende o que explica é sempre o próprio. As palavras
dificilmente são um impulso, ou melhor, são o resultado pensado desse impulso.
Por isso, quando são ditas, já não são tão puras quanto as outras formas de
expressão. Por fim, quando chegam ao destino têm que ser interpretadas, e aí
tudo depende do intérprete, do que a pensa quando a recebe, em vez de a receber
simplesmente.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Iremos juntos
sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as
algas roxas e os corais
Que na praia
deixou a maré cheia.
As palavras que
disseres e que eu disser
Serão somente as
palavras que há nas coisas
Virás comigo
desumanamente
Como vêm as
ondas com o vento.
O belo dia liso
como um linho
Interminável
será sem um defeito
Cheio de imagens
e conhecimento.

Naufrago
Acordando
Um homem só na
areia lisa, inerte,
tão esquecido de
si, que tudo o envolve
em halos de
silêncio e nevoeiro.
Um homem de
olhos fechados, procurando
dentro de si
memória do seu nome.
Um homem na
memória caminhando,
de silêncio em
silêncio derivando,
e a onda
ora o
abandonava, ora o cobria.
Com vagos olhos
comtemplava o dia.
Em seus ouvidos
como um
longínquo búzio o mar zunia.
Líquida e fria,
uma mão sobre os
seus membros escorria:
era a onda,
que ora o
abandonava, ora o cobria.
Um homem só na
areia lisa, inerte,
na orla dançada
do mar.
Nos seus cinco
sentidos, devagar,
a presença das
coisas principia.
Sophia de Mello Breyner
domingo, 17 de novembro de 2013
O Enforcado
No gesto suspensivo de um sobreiro,
o enforcado.
Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.
Dele sobra o cajado.
o enforcado.
Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.
Dele sobra o cajado.
Alexandre O’Neill
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Quem sabe o que sente
sabe certamente que mente,
mas, por vezes, sente-se
uma espécie de semente
de uma coisa maior,
maior que tudo
maior que a perspectiva
da própria semente.
Quiçá será uma árvore
grande e tropical,
quente e filha
de outras, muito antigas…
Quiçá uma trepadeira
alta, esguia,
aventureira
que é firme e resistente
e dá a uma casa cores
que mudam!
É ela que constrói a casa, sem ela
a casa era só uma parede branca
pintada de cores falsas.
Quiçá somente um arbusto pequeno,
Esteva sem resistência
que apenas dá uma flor branca
e morre.
Mas quiçá seja ainda
uma outra coisa
talvez maior, talvez
completamente indecifrável
e é por isso que são
Tão divertidas e especiais as sementes
Desta coisa que às vezes se sente
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
O Velho
Sentou-se confortavelmente no banco do
jardim. Àquela hora, embora circulasse bastante gente pelo jardim, poucos eram
os que se sentavam. Passavam apressadamente grupos de homens e de mulheres,
correndo do emprego para o almoço ou indo do almoço para o emprego. Estavam
agora a passar três homens novos e engravatados, rindo e conversando
animadamente. Era certo que vinham do almoço. Do outro lado da fonte estava uma
velha senhora, tirando, sonolenta, de um velho saco de pano, pedaços de pão
para dar aos pombos que a rodeavam satisfeitos. Num outro banco, um pouco mais
afastado e recolhido, estava um par de adolescentes num beijo que parecia
eterno e saboroso. Agarrados como se se segurassem, uniam sofregamente os
lábios, numa ânsia de amar e mostrar que amam, um pouco desproporcionada.
Adriano era um homem de setenta e tal
anos que não tinha outro passatempo senão este de se sentar no jardim a
observar criticamente todos aqueles que por lá circulavam, desfrutando daquele
bocadinho de campo perdido na cidade. Era aquele bocadinho de campo, tão
repleto de vida citadina, que o fazia aperaltar-se todos os dias num ritual
diário de quem cumpre uma rotina obrigatória. Àquela hora era assim que estava
o jardim. Mais tarde, os namorados voltavam para a escola, a velha senhora
dobrava lentamente o seu saco e caminhava calmamente, sem grandes pressas, para
a pequena casa onde morava com a filha solteira que dava estridentes aulas de
piano. Acalmava este movimento pendular de homens e mulheres a ir almoçar e
começavam a aparecer os habituais velhos, de todas as tardes, que se sentavam
na única mesa do jardim, jogando incansáveis e intermináveis jogos de cartas.
Só às cinco horas o jardim começava de
novo a ter mais movimento. Por vezes, aparecia uma senhora nova que ficava
horas a fitar as árvores através de um olhar vago e distante, como se visse
naquelas árvores antigas e frondosas uma orientação do seu pensamento e
raciocínio. Passava um senhor de meia idade, precocemente reformado, que tinha
na sua rotina diária aquela caminhada para se manter em boa forma física. E
passavam ainda vários homens e mulheres passeando solitariamente os seus cães,
“coisa” que possuem para enganar a solidão mas insistindo em tê-los deixando-os
dias inteiros sós em casa, numa solidão que evitam para si mas que impões aos
pobres animais.
Adriano só recolhia a casa quando caía
sobre o jardim o resfriar da noite ou começava a pairar nele uma humidade nada
convidativa que o repelia a ele e aos outros, deixando o jardim a adormecer só.
A caminhada até casa era muito curta, a casa onde este vivia estava a dois
passos do jardim, num primeiro andar de um prédio sombrio e envelhecido.
Em casa estava já à sua espera a
filha, mulher de poucas palavras, poucos amigos mas muito eficaz profissionalmente.
Secretária de um escritório de advogados, cumpria as suas funções com uma
serenidade e sentido prático invejáveis. Em contrapartida, Susana era
introvertida, com certa tendência para neuras, mas temperando tudo o que fazia
com um leve, mas notório, toque de bondade que a caracterizava. O marido de
Susana era um homem muito calmo que dizia o que tinha a dizer no momento certo,
da forma certa. Era jornalista num pequeno jornal diário, tendo às vezes que se
deslocar para sítios onde decerto nunca desejara ir.
Estava sentado à mesa lendo silenciosa
e pensativamente o jornal do dia anterior. Susana estava na cozinha a acabar um
jantar decidido à pressa com o que encontrara no congelador, como fazia todos
os dias mas desta vez, esquecera-se de ligar o pequeno transístor. Adriano
estranhou, entrou vagarosamente na cozinha e perguntou se se tinha passado algo
no escritório. Pergunta a que Susana respondeu que não, sorrindo bem disposta.
Saíram ambos da cozinha e ao sentarem-se à mesa o casal anunciou, com um sorriso
que lhes preenchia a cara, que a mesa passaria a ter mais um lugar. O futuro avô suspendeu por momentos qualquer gesto ou expressão da sua face, deixando escorrer,
errantemente, uma sentida lágrima de alegria pela cara enrugada. Beijou a
filha, cumprimentou o genro e passou a refeição e o serão a contar a gravidez
da mãe da Susana, sua única filha, estava a caminho o neto que tanto desejara.
Quando recolheu ao seu quarto ficou
longas horas a imaginar-se no papel de avô babado, adormecendo no colo um bebé
que o olha atentamente, apertando com a sua mãozinha minúscula os dedos
cansados de um avô delirante com aquela nova experiência. E, quando mais tarde
andasse e percebesse as coisas do mundo e o próprio mundo, se é que este se
pode compreender, poderia ir com ele ao jardim dar pão aos pombos ou brincar
com uma bola, um carrinho, um triciclo… Entretendo o avô com outra coisa muito
mais intensa e especial do que observar atenta e criticamente aqueles que
passam pelo jardim.
Tourada
Toda a praça em
silêncio. Os leques das senhoras sentadas na sombra ficaram suspensos, dos
charutos paralisados saía, bailando, um fio de fumo, um ou outro bebericavam em
tímidos goles uma cerveja ou coca-cola. Uma criança ficara de boca aberta, fixando
o bruto animal, com o gelado a derreter-se-lhe nos dedos. O famoso matador
estava imóvel, de pose hirta e estudada, erguia horizontalmente a espada. O
touro, quieto e imprevisível, olhava cansadamente para aquele pedaço de pano
que tanto o irritara. Num segundo, o enorme e selvagem animal arrancou,
humilhando pela última vez aquele pedaço de pano. Nesse momento, com agilidade
e técnica, é-lhe cravada a espada com precisão. Levantaram-se as senhoras dos
leques, os homens dos charutos, os que bebericavam timidamente e todos os
outros numa euforia contagiante.
O matador estava
agora de joelhos, o animal olhava-o, impotente. Caiu secamente, inconsciente e cansado.
Aplausos, assobios e uma enorme nuvem de lenços brancos cortaram o silêncio de
há uns momentos. O director da corrida, num gesto lento, colocou o tão pedido
lenço branco seguido de outro, reconhecendo a qualidade daquela lide. Durante a
volta à arena, foram muitos os objectos, flores e aplausos a voar em direcção
ao matador..
Ouviu-se o som
grave do enorme tambor, pondo-se os bandarilheiros em posição. O segundo
matador pusera-se de joelhos com o capote em frente à saída dos curros à espera
do enorme monstro negro. Sai o touro enraivecido, em direcção ao matador que o
domina num suave bailar, conjugando a sua destreza, a harmonia do capote e
ainda a força bruta e enraivecida do pesado animal. Depois deste rápido
espectáculo em que se viu a agilidade do matador, o touro correu em direcção ao
cavalo de um dos picadores que já se encontravam na arena.
Já picado, olhou
desconfiado toda a arena, fixando-se num bandarilheiro. Voltou-se a fazer
silêncio em toda a praça. Começaram a correr ambos na direcção um do outro e ao
cravar as bandarilhas, soou um “olé” geral que atarantou o touro e encheu de
uma coragem vibrante os outros dois bandarilheiros.
Postas as seis
bandarilhas ouviu-se de novo o som grave do tambor e voltou a entrar na arena o
matador, desta vez com a muleta. Caminhou lentamente até ao centro da arena.
Sereno e quase sem se mover do lugar, toureou o animal com tal dignidade e
elegância que nos absorveu a todos numa dança entre força, inteligência e
técnica. Ao meu lado estava uma rapariga dos seus 15 ou 16 anos, seguindo com
os seus olhos grandes e verdes todo aquele espectáculo ao qual estava
certamente ligada desde pequena. Os movimentos ligeiros da sua boca e dos seus
olhos espelhavam claramente a sua avaliação daquela “faena”.
Cambaleava já, de
cansaço e desespero, a fera negra. A sua força bruta fora abafada pela
agilidade do experiente matador. Este, trocou rapidamente as espadas e avançou
em redor do touro, fazendo-o rodar no mesmo sítio. Por cima das arcadas
espreitava um sol já fraco daquele fim de tarde de Outono. Toda a praça voltara
a fazer silêncio. Conseguia-se ouvir o roçar da espada no pano. Até que,
perante a exaustão do animal, o matador recuou três passos e ergueu a espada.
Parou, ajeitou a muleta, focou a espada no “cachaço” do animal e, com um
simples bater o pé no chão, provocou o animal que correu até à morte.
Recuou alguns
passos, cambaleante, e caiu pesadamente sobre as patas. O matador avançou para
o animal, retirou a espada que lhe cravara e, com um único gesto, picou
mortalmente o cérebro do bruto touro que nesse exacto segundo se estendeu morto
na arena. Levantou-se inteira a praça, honrando aquele e aqueles que mantém
viva e saudável esta tradição tão intensa e genuína que ainda hoje encanta e
absorve os que a percebem.
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