terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Dias Cinzentos de Férias III

A Débil

Eu, que sou feio, sólido, leal,
a ti, que és bela, frágil, assustada,
quero estimar-te, sempre, recatada
numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasto,
ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura.
nesta Babel tão velha e corruptora,
tive tentações de te oferecer o braço.

(...)

E foi, então, que eu, homem varonil,
quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu que sou hábil, prático, viril.

Cesário Verde, Novembro, 1876

Dias Cinzentos de Férias II

Canção

Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.

Eugénio de Andrade, in Antologia Breve

Dias Cinzentos de Férias

Espera

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pásaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade in Antologia Breve

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

É já Natal e chove
e está frio,
cheira a chá.
Tantos cheiros
e todos me enjoam.
Vejo-te em cada batidela à porta
oiço-te em cada carro que chega.
Vozes de primo enchem a sala,
vozes de primo deixam a sala fria.
(a sala não aquece)
Este ano a sala não aquece,
há muitas frestas nas janelas
por onde entram, sem vergonha,
frio, água e nuvens cinzentas.

Azeitão, madrugada natalícia, 2013

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

Beatriz é uma mulher mais ou menos sozinha, mais ou menos triste, mais ou menos bonita. Quando lhe perguntam a idade, tem que pensar duas vezes para arranjar maneira de se esquivar. Beatriz não tem vergonha da sua idade, tem vergonha da sua vida naquela idade. Vive sozinha, todos os dias limpa o fogão. Às vezes pensa porque é que o faz se não é assim tão essencial. Depois pensa que se se tivesse juntado a alguém também sentiria essa necessidade. Por fim, pensa que se se tivesse juntado a alguém talvez o fogão precisasse realmente de ser limpo. Pensa também que talvez não usasse sempre o mesmo tacho, aquele pequeno que dá duas doses de arroz: a do almoço e a do jantar. E quando chega a esta fase do raciocínio fica outra vez mais ou menos triste e às vezes sente uma lágrima do lado de dentro do olho. Beatriz tem muita vergonha de as ver do lado de fora dos olhos, por isso chora quase sempre para dentro. Uma vez Beatriz chorou para fora, chorou uma noite inteira, chorou tanto que a meio da noite teve que mudar a camisa de noite por ter já os colarinhos molhados. Foi no dia em que António se foi embora.
António fora um quase-namorado. Era um pouco tonto e tinha muita vergonha de si, mas no fundo era um bom rapaz. António teve que passar muitas vezes na rua de Beatriz; teve que se pôr várias vezes atrás dela na fila do minimercado para pedir quatro tangerinas e um chocolate; teve até que fingir que deixara cair a carteira para lhe conseguir dizer
Olá. – Um “olá” tão tremido e imperceptível que Beatriz, que era mais ou menos descontraída, parou e perguntou
O quê?
Desculpa, estava a apanhar a carteira, acho que já te vi por aqui
Sim, sim, também já te tenho visto às vezes na Clara (Clara era a dona do minimercado). Moras aqui?
Mais ou menos - disse em tom de tosse – moro perto. E tu? – cada vez mais atrapalhado.
Eu aqui mesmo e agora tenho que subir! Dito isto abrigou-se no hall do seu prédio. Tinha sido muita conversa com um estranho. Coisa que a mãe sempre lhe dissera para não fazer.
Perante esta última e repentina resposta, António fez duas tentativas secas de um beijinho de cara mas faltou-lhe a coragem. Sorriu, corou e, virando costas, seguiu pela rua fazendo caretas espontâneas de excitação detida. Falara com ela!
Dias e dias volvidos António continuava a contentar-se com meros sorrisos e “olás” cada vez menos abafados. Cada vez mais culpando-se pela sua falta de coragem e pela sua parvoíce, conseguiu ao fim de três meses tocar-lhe no ombro e segurar-lhe o saco das compras. O saco estava terrivelmente leve, três batatas, uma cabeça de alho e um pacote pequeno de detergente da loiça. Beatriz nunca precisaria de ajuda para o carregar mas sorriu, contente com a delicadeza.
Quase chegados ao Verão António, encontrando-se com Beatriz na rua desta, levara-a à porta e deu-lhe, de repente, um beijo na testa seguido de outro num centro de um triângulo entre nariz, boca e orelha esquerda, tocando nesta com a mão. Separam-se apressadamente sem dizer mais nada. Era preciso pensar.
Beatriz estava cada vez mais envolvida com a ideia de que António poderia vir a ser um bom companheiro e António ficava ao Rubro com cada nova pequena conquista.
Já em Outubro, princípios de Outubro, quando a terra começa a cheirar a chuva e as folhas principiam a amarelar, Beatriz ao abrir a caixa do correio encontrou um bilhetinho azul:
Tive mesmo que ir embora, gosto muito de ti, não fiques à espera. António
Beatriz passou o dia todo a chorar pequenos soluços, enjoada e com frio. Há noite, não conseguindo comer a dose pequena do seu jantar, decidiu ir para a cama. Era uma cama de pessoa e meia que rangia um bocadinho mas não incomodava. Levara uma revista que folheava enquanto pensava em tudo o que não tinha sido aquela relação. Estava triste, aumentava a frequência dos soluços e os olhos doíam-lhe um bocadinho enquanto tentava focar as letras que não estava a ler. Caiu uma lágrima muito grossa, depois mais duas e depois um soluço muito grande. Na cabeça martelava-lhe a voz de António dizendo – Não fiques à espera – e outras lágrimas vinham. Claro que ficaria à espera.

Azeitão, 21 de Dezembro de 2013


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Natal

Aproxima-se o Natal
sorrateiro e discreto
como quem quer chegar de surpresa.
Coloca-se numa luz ali,
numa conversa aqui, num presépio
que vai nascendo na casa da vizinha…
É já Dezembro e chove,
e está frio, cheira a chá.
É inverno.
O Natal é o ponto quente do inverno
e por mais cheiros que tenha,
cheira sempre só a Natal.
Lareira, casacos, gente, tilintar
de loiças e copos, gargalhadas, confusão.
Às vezes umas lágrimas,
às vezes um presente que se dá
às vezes um acordar
gelado, e um presente que se recebe.
É Natal!
diz a rir quem chega
Feliz Natal!
diz uma velhinha que me conhece.
E cantam-se canções
(finalmente a sala aquece)
tiram-se mais uns casacos
e juntamo-nos ao coro.
É meia noite
está escuro.
Nasce, noutro tempo, lá longe
um menino que sorri
diferente em todos os presépios.
É em sua honra que ali estamos,
festejando o facto de ali estarmos.
Festejamos sempre
quando estamos em algum sítio.
Morre um tio, nasce uma prima,
festejamos sempre se é natal.



Continuação de uma Coisa Maior

Talvez seja por seres assim
e essa forma me ter preenchido;

Talvez seja pela força
com que o sinto,
sabendo que o sinto;

Talvez não o tenha medido,
não por medo ou falta de cuidado,
mas pela certeza da imensidão do tamanho;

Talvez por não estar experimentado
e ser só esperança…