Não é um cancro, não é sida. O cancro e a sida corroem-nos o corpo deixando-nos ficar atentos à tristeza que nos rodeia naqueles momentos. O Alzheimer corrói-nos o pensamento e a atenção deixando o corpo às ordens de um cérebro apático.
As pessoas transformam-se em pesadas marionetas com um bocadinho de vida. Vida não…um fio que canta em tom agudo e insiste em não se partir. Fininho, vai esticando, esticando…por detrás de uns olhos imóveis incapazes de ver outra coisa que não esse mesmo fio persistente, que vai mantendo abertos esses olhos. Comem porque os obrigam e falam para dizer que não sabem, não se lembram, não conhecem. Não se lembram do que são nem do que sabem e não conhecem pois não sabem sequer quem são.
São pais e irmãos porque lhes dizem que são pais e irmãos mas, na verdade, não são pais nem irmãos pois não se lembram nem sabem que o são. Lembram-se de música, cantigas, mas não as cantam se não tiverem quem lhas cante ao mesmo tempo. A música lembra-lhes coisas vagas que não sabem bem o que são. São memórias ténues e alegres, talvez a infância seja essa coisa vaga e alegre.
Sorriem porque sentem algo que as faz sorrir, mas esse algo é tão abstracto para elas que só o sentem, não o sabem explicar.
E choram, pois é essa a mais espontânea forma de mostrar o que sentem quando não riem. Choram porque vêem ainda pedaços de si que os fazem lembrar o que já foram antes de serem pesadas marionetas. Choram, porque os olhos estão cansados de olhar para o fio. Choram, porque no fundo de si mesmos sabem que não se lembram que são pais e irmãos.
