sexta-feira, 25 de março de 2011

Alzheimer


Não é um cancro, não é sida. O cancro e a sida corroem-nos o corpo deixando-nos ficar atentos à tristeza que nos rodeia naqueles momentos. O Alzheimer corrói-nos o pensamento e a atenção deixando o corpo às ordens de um cérebro apático.
As pessoas transformam-se em pesadas marionetas com um bocadinho de vida. Vida não…um fio que canta em tom agudo e insiste em não se partir. Fininho, vai esticando, esticando…por detrás de uns olhos imóveis incapazes de ver outra coisa que não esse mesmo fio persistente, que vai mantendo abertos esses olhos. Comem porque os obrigam e falam para dizer que não sabem, não se lembram, não conhecem. Não se lembram do que são nem do que sabem e não conhecem pois não sabem sequer quem são.
São pais e irmãos porque lhes dizem que são pais e irmãos mas, na verdade, não são pais nem irmãos pois não se lembram nem sabem que o são. Lembram-se de música, cantigas, mas não as cantam se não tiverem quem lhas cante ao mesmo tempo. A música lembra-lhes coisas vagas que não sabem bem o que são. São memórias ténues e alegres, talvez a infância seja essa coisa vaga e alegre.
Sorriem porque sentem algo que as faz sorrir, mas esse algo é tão abstracto para elas que só o sentem, não o sabem explicar.
E choram, pois é essa a mais espontânea forma de mostrar o que sentem quando não riem. Choram porque vêem ainda pedaços de si que os fazem lembrar o que já foram antes de serem pesadas marionetas. Choram, porque os olhos estão cansados de olhar para o fio. Choram, porque no fundo de si mesmos sabem que não se lembram que são pais e irmãos.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Retrato de Mónica

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.

Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.

De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.

Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.

Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.

Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.

O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.

É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.

E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.

Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.

Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima e toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.

Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.

E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.
                   Sophia de Mello Breyner                                                                              

sexta-feira, 4 de março de 2011

Cidade

A cidade é um sítio fechado, abafado, onde, por maior que seja, não há espaço para chorar. Na cidade há pessoas que vivem emprateleiradas, sufocadas por um movimento pendular que não é mais que uma rotação desgastante. Na cidade há carros que vagueiam por entre essas estantes de estética rectilínea e vertical, cumprindo esse movimento cíclico. Passam pessoas apáticas de tudo, sonhando com nada e viagens que nunca hão-de fazer. Passam velhos e cães na hora do seu passeio, felizes por terem um momento de liberdade. Felizes porque lhes abriram, condicionalmente, as portas da jaula.
Na cidade há, às vezes, pequenos jardins, jardins... Pequenos pedaços de terra por construir onde plantaram árvores e arbustos convenientemente orientados para que ninguém pudesse sonhar que não estava ali. Por todo o lado há relógios que insistem em nos mostrar que, segundo a segundo, o tempo está a passar, levando-nos com ele nesse passo apressado em que caminha.
Às vezes, se estivermos bem dispostos, conseguimos, com imaginação, ver o sol e o céu no sol e no céu. Só com um pouco de imaginação conseguimos ver no sol o sol e não mais um adereço que tenta, em vão, embelezar a cidade.
À noite, por vezes, vê-se uma estrela que insiste em se mostrar, teimosa e sozinha num céu escuro, sem sonhos e sem desenhos. À noite há luzes tentando fazer da noite dia, para continuarmos a ver a cidade tal como é. Luzes que, mais uma vez, nos impedem de sonhar... 

terça-feira, 1 de março de 2011

concerto

Suspenso está tudo o que vejo,
a árvore, a casa, o mar sereno,
a brisa que entra salgada
e o sol alto e pleno.
Suspensa a nuvem que o cobre,
suspenso o mar que se agita.
Cai a folha, cai a árvore
cai a casa e grita,
aflita!
Entram os violinos e os violoncelos,
assobia o vento nos destroços...
Entram as flautas e os oboés,
levantam-se as areias desse vento
e desta comunhão um instrumento...
A flauta toca mágica, e com ela
vem um pássaro que serena.
A casa renasce e sorri,
a árvore levanta-se, preguiçosa
e o mar serena-se de novo em si.
Vem o sol com um piano
que estende de novo a areia,
que aconchega o mar,
que aconchega a casa,
que nos aconchega a nós.
De novo a mágica flauta
tráz a suave brisa...
E toda a orquestra a maresia,
numa comunhão que é poesia!

Viagem

Viagem

Se eu pudesse fugia.
Talvez de barco,
ou embarcando em fantasia...
Saltitava pelo mundo
Áustria, Grécia ou Andaluzia.
Na Ásia os cheiros, as pessoas,
em África a música e batuque certo
ritmam o cheiro a maresia...
E o sonho, em trote acelerado,
passava já por malta e depois Veneza
dos canais, espelhando o passado...
Descansa desse trote nas Américas
como pássaro que chegou ao seu destino.
Mas já refeito, migra ainda
para um México, em tudo Espanholado
onde o sonho pára, já cansado...
Amanhece, galopa agora apressado,
desce a costa pela onda que o transporta,
segue a estrela que se dissipa
abafada por uns raios vermelhos, preguiçosos
que me mandam de novo o sonho
para em mim morrer! E ao acordar,
vejo esses mesmos raios que sorriem
coados pela minha janela
de guilhotina...