Miga? Miga?! Miga!
Estremece. Está viva. Olha-me com uns olhos semi-cerrados de meio de noite.
Está frio e chuva e escuro. Eu sei que devia estar deitado, já vou. Estamos só
os dois outra vez, Miga. Puta de solidão. Cheira a cão e a mofo e a whisky. Não
adormeças agora, por favor. Não tens frio? Quem me dera que soubesses dar
abraços. Estavas a sonhar? Eu sei que já tivemos esta conversa mas eu não
acredito que não sonhes. Eu sonho cada vez menos… E quando sonho, têm sido
sempre coisas tão terríveis que acordo enrugado da almofada espremida e rodeado
de lençóis entrouxados no chão do quarto dos rapazes.
Estás aí Miga? Suspira,
talvez de compaixão, ou então de tédio. Desculpa Miga, não estou nada boa
companhia. Ainda por cima comi as nossas bolachas todas há bocado. Se quiseres
podes adormecer, eu fico aqui. Não quero voltar para aquela caminha onde há
anos não caibo. Seguiu-me em todos os pesos, fases e alturas - “agora passou a
mãe, agora passou a avó, agora passou o pai”- e a cama resistiu sempre.
Resistiu a todos os tios e primos e amigos, resistiu até aos meus pés de fora e
aos espasmos dos pesadelos. Estremece heróica a cada rasgão nos lençóis velhos
dos avós que, como os cães, sofrem os males dos donos.
Estás a dormir? Ressona como
um velhinho, estendida sobre o tapete grande da entrada da cozinha, do lado de
fora, é evidente. Sonha, de certeza que sonha. Um circo, se calhar, só com
pessoas, uma jaula de leões em silêncio e um pódio vazio, só tem dois lugares,
claro. Se calhar não está vazio, eu é que ainda estou a sonhar.
Não morras já Miga, preciso
que fiques aí a ressonar. Preciso que estejas aqui amanhã de manhã. Preciso que
continues a não perceber nada do que te digo quando te digo coisas que só digo
a ti. Pode ser que o circo mude de terra, os circos não costumam estar muito
tempo no mesmo sítio, felizmente.
Azeitão, madrugada de 10 de
Junho, 2014