quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Velho

Sentou-se confortavelmente no banco do jardim. Àquela hora, embora circulasse bastante gente pelo jardim, poucos eram os que se sentavam. Passavam apressadamente grupos de homens e de mulheres, correndo do emprego para o almoço ou indo do almoço para o emprego. Estavam agora a passar três homens novos e engravatados, rindo e conversando animadamente. Era certo que vinham do almoço. Do outro lado da fonte estava uma velha senhora, tirando, sonolenta, de um velho saco de pano, pedaços de pão para dar aos pombos que a rodeavam satisfeitos. Num outro banco, um pouco mais afastado e recolhido, estava um par de adolescentes num beijo que parecia eterno e saboroso. Agarrados como se se segurassem, uniam sofregamente os lábios, numa ânsia de amar e mostrar que amam, um pouco desproporcionada.
Adriano era um homem de setenta e tal anos que não tinha outro passatempo senão este de se sentar no jardim a observar criticamente todos aqueles que por lá circulavam, desfrutando daquele bocadinho de campo perdido na cidade. Era aquele bocadinho de campo, tão repleto de vida citadina, que o fazia aperaltar-se todos os dias num ritual diário de quem cumpre uma rotina obrigatória. Àquela hora era assim que estava o jardim. Mais tarde, os namorados voltavam para a escola, a velha senhora dobrava lentamente o seu saco e caminhava calmamente, sem grandes pressas, para a pequena casa onde morava com a filha solteira que dava estridentes aulas de piano. Acalmava este movimento pendular de homens e mulheres a ir almoçar e começavam a aparecer os habituais velhos, de todas as tardes, que se sentavam na única mesa do jardim, jogando incansáveis e intermináveis jogos de cartas.
Só às cinco horas o jardim começava de novo a ter mais movimento. Por vezes, aparecia uma senhora nova que ficava horas a fitar as árvores através de um olhar vago e distante, como se visse naquelas árvores antigas e frondosas uma orientação do seu pensamento e raciocínio. Passava um senhor de meia idade, precocemente reformado, que tinha na sua rotina diária aquela caminhada para se manter em boa forma física. E passavam ainda vários homens e mulheres passeando solitariamente os seus cães, “coisa” que possuem para enganar a solidão mas insistindo em tê-los deixando-os dias inteiros sós em casa, numa solidão que evitam para si mas que impões aos pobres animais.
Adriano só recolhia a casa quando caía sobre o jardim o resfriar da noite ou começava a pairar nele uma humidade nada convidativa que o repelia a ele e aos outros, deixando o jardim a adormecer só. A caminhada até casa era muito curta, a casa onde este vivia estava a dois passos do jardim, num primeiro andar de um prédio sombrio e envelhecido.
Em casa estava já à sua espera a filha, mulher de poucas palavras, poucos amigos mas muito eficaz profissionalmente. Secretária de um escritório de advogados, cumpria as suas funções com uma serenidade e sentido prático invejáveis. Em contrapartida, Susana era introvertida, com certa tendência para neuras, mas temperando tudo o que fazia com um leve, mas notório, toque de bondade que a caracterizava. O marido de Susana era um homem muito calmo que dizia o que tinha a dizer no momento certo, da forma certa. Era jornalista num pequeno jornal diário, tendo às vezes que se deslocar para sítios onde decerto nunca desejara ir.
Estava sentado à mesa lendo silenciosa e pensativamente o jornal do dia anterior. Susana estava na cozinha a acabar um jantar decidido à pressa com o que encontrara no congelador, como fazia todos os dias mas desta vez, esquecera-se de ligar o pequeno transístor. Adriano estranhou, entrou vagarosamente na cozinha e perguntou se se tinha passado algo no escritório. Pergunta a que Susana respondeu que não, sorrindo bem disposta. Saíram ambos da cozinha e ao sentarem-se à mesa o casal anunciou, com um sorriso que lhes preenchia a cara, que a mesa passaria a ter mais um lugar. O futuro avô suspendeu por momentos qualquer gesto ou expressão da sua face, deixando escorrer, errantemente, uma sentida lágrima de alegria pela cara enrugada. Beijou a filha, cumprimentou o genro e passou a refeição e o serão a contar a gravidez da mãe da Susana, sua única filha, estava a caminho o neto que tanto desejara.
Quando recolheu ao seu quarto ficou longas horas a imaginar-se no papel de avô babado, adormecendo no colo um bebé que o olha atentamente, apertando com a sua mãozinha minúscula os dedos cansados de um avô delirante com aquela nova experiência. E, quando mais tarde andasse e percebesse as coisas do mundo e o próprio mundo, se é que este se pode compreender, poderia ir com ele ao jardim dar pão aos pombos ou brincar com uma bola, um carrinho, um triciclo… Entretendo o avô com outra coisa muito mais intensa e especial do que observar atenta e criticamente aqueles que passam pelo jardim.

    

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